AVENTURA NA ARTE DE APRENDER À VELEJAR  
 
     Há alguns anos quando hospedado em um hotel na Bahia   tive a oportunidade  de entrar em contato pela primeira vez com um veleiro,   um Laser,  ainda  posso lembrar a minha surpresa com aquele barco que não  obedecia de  imediato minhas vontades, como as lanchas que eu já   conhecia,  cresci  passeando em uma potente lancha de motor de centro,   seis  cilindros de exagerada potência que  obedecia de imediato qualquer   comando. 
 
    O veleiro  não . Era tudo diferente, eu queria ir para um lado teria   que puxar o leme  para outro lado  ... eu queria ir agora e só ia quando  ele queria ... eu  queria ir direto mas ele só ia em zig-zag ... eu queria  parar e ele não  parava ... eu queria isto,  eu queria aquilo e ele   TÉÉINNNN me deu uma  retrancada na cabeça para eu largar de ser teimoso,  como   fazia com um  cascudo na cabeça dos alunos,  os professores do tempo de  nossos avós . E  eu comecei a prestar menos atenção as minhas vontades e comecei a prestar  mais atenção nele, o veleiro.
   
     Esta primeira experiência me deixou uma desafiante   impressão  e pouco  meses após,  eu em Brasília,  comprava através de um  telefonema como meu  pai em Vitória, um Laser na Mesbla . Ainda me lembro os  sorrisos de  gozação do Cajatí,  do Mauro e do Ziga quando eu  desembrulhava o casco do  meu Laser no galpão do Iate . O barco era diferente,   mais largo, parecia  maior e mais bonito ... meu Laser era na verdade um  Holder,  mais o que  aquilo  importava ? eu nem sabia direito o que era  flotilha,  regata,   estas coisas,  meu primeiro barco estava lá e eu logo  sairia com ele para o  lago,    tirando fino logo de saída nos barcos que estavam  ancorados no cais   do Iate ... cuidado ! vai prá  outro lado ! puxa a escota ! ... escota ?   o  que é escota ?? ... é esse cabo aí ! ... cabo ??? ... é,    está "corda" aí  !!!  E logo por solidariedade ou diversão,  meus  primeiros amigos da vela  tentavam diminuir minha confusão . E eu começava a  aprender à aprender a  velejar .
    Naquela época as regatas eram diferentes,  as regatas    festivas eram mesmo  festivas,  corriam todos os barcos juntos na mesma raia,   Laser,  Hobicat,   470,  veleiros de oceano ... e lá fui eu para a longínqua  raia sul  participar da minha primeira regata depois de muito  encorajamento do Cajatí  ... vai que é simples,   é um percurso triângulo  barla-sota ... barla-sota  ??? ... quando finalmente cheguei na raia,  obviamente  atrasado e me vi no  meio daqueles veleiros todos que eu começava à admirar,   me senti um   observador privilegiado vendo tudo de perto,  ali no meio  da competição ...   IVANNNN !! SÁAAI DA FREENNTE !!! ... era o Mauro berrando  do alto de um   veleiro que me pareceu enorme . E eu começava a aprender  à aprender a    competir em regatas .  Regatas . Como é que eu podia competir em regatas se só  existia três  Holders em Brasília ?
 
    Compra um Micro ! É compra um Micro   !! Micro ?   Microtoner,  aquele veleiro pequeno que parecia grande,  velejava bem e não  era tão caro . E alguns meses depois lá estava eu à bordo  do meu Micro,   o  Moonsoon . Não,  não era Musum,  era Moonsoon,  apesar de   alguns insistirem  em trocar seu nome para me provocar,  e eu gostava muito  dele .O Moonsoon  era um professor irrequieto e temperamental,   sempre com  um  cascudo-retrancada pronto à minha  primeira desatenção ou  teimosia . Me  ensinou à ficar atento rapidinho ! Mas eu não me entendia  muito bem com o  Moonsoon,  até que um dia surgiu para mim uma nova chance  de aprender . O  Ziga me convidou para compor com ele e o Fernando  Boanes,  a tripulação do  Moonsoon no Campeonato Brasileiro   de Microtoner que  aconteceu em Brasília  em 1995 . Ivan posso mexer no barco ? dar uma regulada ? Perguntou o Ziga .
     É claro fique a vontade . E antes que eu acabasse de   falar o Ziga e o  Fernando desmontaram o barco,  e afrouxa daqui aperta   dali,  furadeira  furando aqui e acolá e o barco se levantou diferente,    tão diferente que na  primeira regata chegou lá na frente,  em primeiro,  com  toda flotilha atrás,   inclusive os Micros de São Paulo . Eu me senti como que  traído ! como  pode este barco turrão andar com esta eficiência e leveza  nas mãos do Ziga ... e eu logo percebi que o turrão era eu . O Ziga é um  excelente professor, conversa pouco e ensina muito,  me fez entender que  primeiro entenda o  barco para então não o atrapalhar,  um bom barco quase  que veleja sozinho,  aí não há mais conflito só   eficiência .
   
E o tempo passou e vieram os filhos e as filhas,  e as  filhas são   diferentes,  não acionam o chafariz por cima do  guarda-mancebo,   elas  precisam de banheiros . E eu comecei  a procurar um bom   banheiro à bordo,
até que um dia passeava com meu filho e uma filha pelas mãos no cais do Iate,   quando minha  filha se soltou de minha  mão e  tchibummm ! mergulhou  na piscina do cockpit de um Delta 26 novinho que acabara  de chegar, era o  Hookipa . A filha do Mauro encheu com a mangueira o  cockpit do veleiro e   estava lá toda contente . Para minha surpresa,  o bom o  humor e até a falta  de ciúme com o barco novo demonstrado pelo Mauro, me  chamou a atenção .
    Vem ! entra vem conhecer o barco ! e eu passei pela piscina e fui direto  ver se aquele era o banheiro à bordo que eu procurava .
     Era melhor do  que  eu imaginava ! um bom banheiro,   fogão,  geladeira,  até  um camarote com  porta na proa! .... Pai que casa legal !!! exclamou meu  filho ao entrar no   barco depois de mim . Voltei ao "deck"da piscina e ouvia  o Mauro elogiar o  mastro,   a forma do casco,  a performance ... e eu ainda  não estava   preparado para aquilo,  eu só via a "casa legal".
   
    Que  conforto !  Um ano depois chegou meu Delta 26,  o Albatroz . Com o  Holder eu aprendi  que podia querer à aprender,  com o Moonsoon comecei a  aprender,  mas com o  Albatroz era tudo  diferente,   ele é um professor  poderoso e calmo,  tem paciência,  me corrige suavemente,  sabe esperar . Me  ensinou a olhar suas  asas,  as que negociam com o vento ... aprendi a levantar  a cabeça da minha  mesa de trabalho e redescobrir que nossa cidade tem um  belo céu,  belas  nuvens,   ora grandes e brancas ora frágeis e longas como  rendas .
 
    Reaprendi  que as nuvens dependem dos ventos,  que os ventos movem  os galhos mais  delgados de uma maneira e os  mais fortes de outra,   quando nos chega de  diferentes direções,  reaprendi à olhar os galhos,  as   folhas,  as árvores de nossa cidade,   reaprendi a levantar os olhos da minha  mesa de trabalho .
    Me ensinou a olhar suas asas,  as que negociam com a água,    a quilha e o  leme,  quando das águas claras do nosso lago pode-se ver  aquele vulto   branco se movendo na transparência verde do Paranoá .
    Mais uma vez o Ziga subiu à bordo . Com o Ziga no timão  o Albatroz chegou  em primeiro na Regata da AABB .Ele voou suave e sem  esforço . Na Regata JK  2000,  apesar do peso da "casa legal"  com TV à cores,  geladeira elétrica, ventilador,  coleção de revista da Turma da Mônica ...  o  Albatroz se  moveu na interface vento e água com tal eficiência que  deixou a flotilha lá  atrás,  chegando colado no fita azul . Na última Regata  Solitário eu  procurei seguir os conselhos do Ziga,   interferi pouco e  deixei o barco  andar e novamente cheguei com a flotilha  toda atrás,  exceto pelo fita  azul . O Ziga conseguiu em poucas lições me ajudar a não  ter conflitos com  o Albatroz  e obter eficiência ao velejar .
    O Westone tem me feito a subversiva proposta de retirar  o motor de popa  que descansa no engate do Albatroz,  regata após regata,    sei até que  aquele motor não combina com a nobreza de um veleiro ...   mas não  sou dono  de meu tempo,  não posso ficar ao sabor das calmarias,  aos caprichos dos  ventos ... meu tempo pertence as Luízas,   aos Pedros,  as Marianas,  aos  bebês que ainda estão para nascer ... se eu pudesse  tiraria  não só o motor  mas também o celular e o bip da minha cintura,  se eu  pudesse ...  Se compartilho com todos meu caminho no aprender a  velejar é  porque sei   que se tivesse tido ao seu tempo um bom professor,  apesar de muito  divertido tudo  teria sido mais breve e eficiente.
 
     É  também por isto que  estamos criando a E V V O D 26 - Escola de Vela em  Veleiros de Oceano  Delta 26, onde acredito que cada aluno(a) pelo seu  caminho na arte de  velejar vai reaprender a ver as asas de um Delta,  reaprender a levantar a cabeça da mesa de trabalho e ver as nuvens,   reaprender e entender o vento, reconhecer a força das rajadas pelas diferenças de tons  de verde do  Paranoá . E vai se tornar um bom regatista sem perceber,   sem ansiedade e sem conflitos .

Bons ventos,  todos os ventos,  um abraço à todos .

Ivan Malheiros.

Maio de 2001