MIGUENS - UM AMIGO MESTRE
Caros Iatistas,
Como amigo pessoal e antigo do querido Comandante Miguens, fiquei
amargurado com a notícia da sua prematura morte. Homem de hábitos
simples,de postura franciscana, inteligentíssimo, primeiro da sua turma, foi
comandante do Navio Oceanográfico Alvaro Alberto, que na época acabara
de ser incorporado ä Marinha do Brasil. Esse navio serviu na Antártida, sob
o seu competente Comando.
Altineu Pires Miguens, esse era o seu nome completo. Levou inúmeros
velejadores do Brasil, em especial de Brasília a se graduarem como
Mestre Amador e Capitão Amador.
Era um professor brilhante, sabia tudo de navegação. Se temos uma
carta náutica do Lago Paranoá devemos isso a Marinha e ao nosso Miguens. Ele
participou da sua elaboração e dos trabalhos técnicos de batimento do
fundo do lago. Era uma homem ligado a hidrografia. fez dela sua escola e
sua arte.
Suas publicações intituladas de "navegação: A Ciência e a Arte"
demonstram sua ligação com essa tão antiga arte. Ele era ao mesmo tempo um
discípulo
e um mestre.
Tive a oportunidade de realizar junto com ele, com o Gustavo Shneider,
o Robson Paoli, o Péricles Toledo, uma viagem a bordo do "Kraka", (que no
retorno contamos com o Marco Antonio Quezado e com o João Goulart, que
publicou na sua página o diário de bordo que escrevi sobre a viagem) de
Brachuy no Estado do Rio de janeiro, até o Arquipélago dos Abrolhos.
Foi uma aventura sensacional, e o Miguens foi o nosso competente
navegador. Não tínhamos o GPS, usávamos o Sextante e o radiogoniometro.
Chegamos navegando a Abrolhos, debaixo do Farol, as quatro horas da
manha, numa região de difícil navegação. Ele acertou na mosca. Ele se
apaixonou pelo "Kraka", chegando posteriormente a compra-lo do Gustavo,
sendo seu nos dias de hoje.
Se continuar aqui relatando os feitos do Miguens, não haverá papel
nem tinta suficientes para descrever tão rica existência.
Estava aposentado, tinha se mudado para Brachuy, em Angra dos Reis,
onde tinha um pequeno apartamento que seria sua base para futuras incursões
pelo Oceano Atlântico.
Era um homem do mar, tinha duas paixões na vida: a Neuza e o mar.
Falei com ele longamente há cerca de dez dias atrás. Ele estava se
preparando para curtir sua aposentadoria. Não consegui falar com sua
companheira, sua esposa, Neuza Miguens.
Lí ontem, no dia da sua morte, no Correio Brasiliense, uma coluna,
chamada "Tantas Palavras" que publicou um poema de Carlos Drumond de
Andrade, que resume bem o que nós da vela sentimos pela morte irreparável do
Miguens:
A UM AUSENTE
Carlos Drummond de Andrade
Tenho razão de sentir saudade,
Tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
E sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
Sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
De nossa convivência em falas camaradas,
Simples apertar de mãos, nem isso, voz
Modulando sílabas conhecidas e banais
Que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste
Caro Miguens,
Se já temos no céu um "farol divino", nada melhor que um navegador da
sua envergadura para auxiliar a Deus na difícil navegação celestial.
Bons ventos celestes te guiem meu irmão!!!!
José Luiz Motta de Avellar Azeredo
(Zelão)
29-10 2005